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18 anos sem o "Padre Zé Luiz"


Hoje, 30 de setembro de 2009 completa 18 anos que morreu José Luiz Silva, o “Padre Zé Luiz”, pai deste blogueiro, e que fez história, amigos e inimigos neste Rio Grande do Norte como escritor, jornalista e intelectual. Frasista dos melhores, dono de uma gargalhada de se tornou célebre na calçada do Café São Luiz e alhures, Zé Luiz deixou uma obra que merece respeito, com destaque para “Apesar de tudo” e “Na calçada do Café São Luiz” (que serão reeditados em 2010 pela editora Mekong), além de centenas de artigos de jornais.
Posto abaixo um famoso artigo de Zé Luiz chamado “A quem interessar possa”, mas que á mais conhecido como “O inteligente e o sabido”. Foi originalmente publicado em 14 de Agosto de 1983 em"O Poti"




A quem interessar possa

José Luiz Silva


Há duas categorias de pessoas que, sobretudo no Rio Grande do Norte, merecem um debruçamento maior, uma atenção mais atenta, um enfoque mais aproximado: o inteligente e o sabido.

O inteligente é como o grão. Se não morrer, será infecundo. A fecundidade do sabido é feita na cotidianidade dos seus sonhos. O inteligente é aritmético. Consegue sobreviver.

O sabido é geométrico. Quase sempre vive sobre. O inteligente é polivalente na ordem do conhecimento. O sabido, na ordem do aproveitamento.

O inteligente é grosseiro às vezes, mas humano, profundamente humano. O sabido se irrita, mas é sempre fino. Fino e aderente. Sobretudo ao poder. E quando eu falo em Poder, não me refiro pura e simplesmente ao Sistema. Me refiro ao poder, podendo.

Feito de números. Sobretudo de números.

O inteligente pode ser desligado. O sabido, nunca. O inteligente gosta de se encontrar com v elhos amigos. O sabido prefere localizar novos. Se vão lhe render dividendos. O inteligente é simples. O sabido é complexo.

Chegar a ele, às vezes não é fácil. O mundo é dos sabidos. A vida, dos inteligentes. Na sua intensidade. A ambição do inteligente é limitada. Porque limitada, nem consegue ser ambição. O sabido é, sobretudo, ambicioso, explicação maior do seu sucesso. O inteligente poderá ser sábio. O sabido, jamais. A fé do inteligente é escatológica.

Do sabido, circunstancial. O inteligente não consegue ser audaz. A ousadia, porém, é o oxigênio do sabido. O inteligente aguarda a morte como passagem; para o sabido, ela não é objetivo de cogitações.

O inteligente gosta de bibliotecas; o sabido, de computadores. O inteligente sonha com Paris, escreve maravilhosamente sobre Paris, mas suas notas são escritas em Tibau ou na Redinha. O sabido dorme em Lisbo a, acorda em Hong-Kong e janta em Ponta Negra.

O inteligente sorri. E no sorriso se esboça a silhueta da paz. O sabido ri. E ri gostosamente. O inteligente tem saudades; o sabido, nostalgia. O inteligente mergulha no silêncio. O sabido vira taciturno. O inteligente fica só, para estar com os outros; o sabido, para libertar-se deles.

O inteligente cria; o sabido amplia. O inteligente ilumina; o sabido ofusca. O inteligente pensa em canteiros de flores; o sabido, em projetos de reflorestamento. O antônimo de inteligente é burro, de sabido é besta; às vezes (quem sabe) viram sinônimos.

Ser, para o inteligente é fundamental. Parecer, para o sabido é prioritário. E como vivemos no mundo das aparências, nele o inteligente não terá vez. Desde que mude os seus critérios. Aí então, aflora a crise do desencanto.

É quando a mediocridade se entroniza, o supérfluo se instala e a inteligência se rende. A não ser que o inteligente se chame Unamuno, reitor imortal. Por isso, ele foi magnífico. Do contrário não teria sido reitor, mas feitor. E de feitores o Brasil está cheio. Sabidos, por sinal.

Sabido é Diógenes da Cunha Lima. Inteligente é Jarbas Martins.

Cascudo é inteligente. Sabida é sua entourage.

Inteligentes são Zila Mamede e Otto Guerra.

Inteligente é Waldson Pinheiro. Inteligente foi Miriam Coeli. Inteligente é Padre Ônio (de Cerro Corá) e Dom Heitor (de Caicó). Inteligente foi Dom Costa (de Mossoró). Inteligente foi o pastor José Fernandes Machado.

Inteligente é Anchieta Fernandes. Inteligente é Vingt-un.

O inteligente compra livros. O sabido, ações.

Para o sabido, as letras que realme nte valem são letras de câmbio. Inteligente é quem trabalha para viver razoavelmente. Sabido é quem consegue que outros trabalhem para que ele viva maravilhosamente. O inteligente sua. O sabido transpira.

O inteligente acorda cedo. Para ele, Deus ajuda a quem madruga. O sabido acorda tarde. Outros madrugam por ele. Sem o inteligente, o que seria do sabido?

Inteligentes são Manoel Rodrigues de Melo e Raimundo Nonato.

Sabido é Paulo Macedo. Também "imortal".

Inteligente é Dorian Jorge Freire. Sabido é Canindé Queiróz.

Inteligentes são Eulício e Inácio Magalhães. Inteligente era Hélio Galvão. Sabido é Valério Mesquita.

Inteligentes eram José Bezerra Gomes e João Lins Caldas. Inteligente foi Jorge Fernandes. Sabido, Sebastião.

Inteligente é Erasmo Car los. Sabido é Roberto.

Inteligente foi Garrincha. Sua inteligência, porém, não foi além de suas pernas. Com elas, encantava. Sabido é Pelé. Transformou suas pernas em objeto de lucro. Não é a toa que a cidade de Garrincha se chama Pau Grande. E Pelé nasceu onde? Não foi em Três Corações?

Ao mesmo tempo pode amar Xuxa, o Cosmos ou as audiências na Casa Branca.

Há um campo, porém, onde o número de sabidos é pródigo. Mas pelo menos hoje, eu não quero pensar nos inteligentes e sabidos quando se trata de competição eleitoral.

Aqui, o sabido leva sempre vantagem.Quem não se lembra de 74?

O inteligente não era Djalma? Sabido, porém, foi Agenor.

E o povo do RN optou por quem? Pelo inteligente ou pelo sabido?

2 comentários:

  1. Elder Heronildes da silva2 de outubro de 2009 07:35

    Conheci o Padre Zé Luiz. Com ele, nos tempos em que fez de Mossoró sua casa, mantive um bom, agradável e instrutivo (para mim) relacionamento.Seria chover no molhado dizendo-o inteligente, culto e de uma sensibilidade à flor da pele.Tinha grandeza em todos os sentidos e um entusiasmo impressionante, embora conhecesse, como ninguém, a realidade existencial. Engrandeceu a vida. Viveu livre e intensamente, como se estivesse construindo uma obra de arte,sob o manto da própria criação. Este texto já o havia lido muito antes. Ele é a representatividade criativa de um cérebro fecundante de expressividadde e inteligencia. Relembrar Zé Luiz me fez bem. Elder, de Mossoró.

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  2. Um abraço, Elder e valeu pela visita e pelo comentário sobre o saudoso Zé Luiz.

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